Pular para o conteúdo principal

A Revolta dos "Malês" de 1835: Uma Rebelião Islâmica na Bahia





A Revolta dos "Malês" de 1835: Uma Rebelião Islâmica na Bahia


"Uma das maiores rebeliões de Escravos da Bahia no Brasil Império, a Revolta dos Malês foi liderada por um pequeno grupo de africanos escravos e libertos de origem islâmica.
A Religião de Maomé chegou ao Brasil através dos escravos levados pelo tráfico das regiões africanas de cultura islâmica. Tentaram até deflagrar uma guerra santa na Bahia. Davam-se a si próprios o nome de Musulmis (muçulmanos), mas os outros escravos negros de origem bantu ou congolesa os denominavam "Malês", isto é, gente do Império Africano e Islâmico do Niger-Mali. Malê era uma corrutela da palavra Malinké, gente de Mali. Os Malês, sendo de origem maometana desprezavam e hostilizavam os demais grupos Religiosos entre os escravos, se isolando entre àqueles que somente acreditavam em Allah
Esses escravos muçulmanos pertenciam aos povos haussás ou auçás, nagôs ou iorubas, tapas, jejes, grunas, bornos, cabindas, barbas minas, calabares, jobus, mendobis e benins.
Não seguiam ortodoxamente o alcorão, porém as práticas de uma das seitas do Islam que se tinham espalhado pela África. Alguns possuíam certa instrução, muitos sabiam ler e escrever a língua árabe. Obedeciam a imames, chamados limanos ou alumás, e a marabutos ou santarrões.
As primeiras insurreições desses africanos maometanos na Bahia foram preparadas pelos auçás em 1807 e 1809, sendo esmagadas pelo Governador, o Conde da Ponte. Durante os anos de 1813 e 1816, o Governador Conde dos Arcos venceu duas novas rebeldias desses mesmos auçás. Em 1826, 1827 e 1828, os Iorubas se levantaram por sua vez, foram vencidos e duramente castigados pelas autoridades. Em 1830, uma nova revolta abortou devido a uma denúncia.
A Guerra Santa explodiu em 1835. Durante essa época, devido à revolução dos Farrapos no Rio Grande do Sul, as províncias do Norte, entre elas a da Bahia, estavam desprovidas de tropas. Os musulmis ou malês aproveitaram essa circunstância favorável para um golpe de surpresa que lhes devia entregar a Cidade do Salvador, onde pretendiam chacinar os brancos e proclamar uma rainha negra, a escrava Sabrina, que afirmavam ser uma princesa na sua terra natal. Para se reconhecerem durante a luta, todos deviam usar uma gandura ou camisola.
Tudo fora minunciosamente preparado em segredo no seio das djemas ou associação religiosas que mantinham os escravos
em contato, sob a orientação da sociedade secreta Ohogbo. Escravos libertos enriquecidos no comércio e pequenas indústrias locais forneciam armas, munições e dinheiro. Havia escravos organizados em grupos militares e muito bem armados. Mulatas e negras libertas serviam de elementos de ligação. Duas dessas mulheres se apavoraram na última hora e denunciaram a conspiração às autoridades, que tomaram providências de caráter militar
Um grupo de cerca de 600 africanos liderados pelos muçulmanos Manuel Calafate, Aprígio, Pai Inácio, entre outros, armou uma conspiração com o objetivo de libertar seus companheiros islâmicos e matar brancos, negros e mulatos considerados traidores, marcada para estourar no dia 25 daquele mesmo mês.
As autoridades da cidade já sabiam com antecedência que a Revolta iria ocorrer através de Sabina da Cruz uma ex escrava esposa de um dos amigos dos revoltosos. As forças policiais de Salvador do Major José da Rocha Galvão e a Guarda Nacional enfrentaram os rebeldes em uma batalha sangrenta que resultou em 87 mortes, 80 rebeldes e 7 policiais. Boa parte dos revoltosos conseguiu fugir no caos e cerca de 300 foram presos. Mais de 500 africanos foram expulsos do Brasil e levados de volta à África. Empregaram o negreiro Francisco Félix de Sousa para a viagem atlântica. Os deportados, que consistiam em africanos libertos e escravizados, foram enviados em etapas para a Baía de Benin a partir de 1835, especificamente para a colônia lusófona existente no Daomé. Acredita-se que alguns membros da comunidade brasileira de Lagos, na Nigéria, e o povo Tabom de Gana são descendentes dessa deportação, embora os descendentes desses repatriados afro-brasileiros tenham a reputação de estar espalhados por toda a África Ocidental.


Fonte: “Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835” de João José Reis/Segredos e Revelações da História do Brasil. Gustavo Barroso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Linhas de Trabalho da Umbanda – Baianos, Boiadeiros, Ciganos – Marinheiros, Malandros, Povo do Oriente, Mestres da Jurema.

Linhas de Trabalho da Umbanda – Baianos, Boiadeiros, Ciganos – Marinheiros, Malandros, Povo do Oriente, Mestres da Jurema Falando sobre linha de trabalho, vamos para a linha de Baianos. Caboclo, Preto Velho e Criança são as três principais linhas de Umbanda. São linhas tão fortes que alguns autores chegaram a dizer que a Umbanda era só pra Caboclo, Preto Velho e Criança, mas não é assim. Voltando na história de Zélio de Moraes como o básico do fundamento da religião, ele diz: “Com quem sabe mais a gente aprende, pra quem sabe menos a gente ensina e não vamos virar as costas para ninguém”, se não vamos virar as costas para ninguém por que é que vamos virar as costas para o Baiano, o Boiadeiro, o Marinheiro? A Umbanda é uma religião onde as entidades se manifestam, não apenas Caboclo Preto Velho e Criança. Embora essas sejam as três primeiras linhas de trabalho, as primeiras linhas de entidades que se manifestam na Umbanda: Caboclo, Preto Velho e Cria...

Elementos de Liturgia na Umbanda (bate cabeça – consagração – imantação – cruzamento)

Elementos de Liturgia na Umbanda (bate cabeça – consagração – imantação – cruzamento) Liturgia significa todo o contexto do ritual de uma religião.  Elemento de liturgia, ou elemento ritual, na Umbanda, é o ato de, por exemplo, “bater cabeça”. O que é bater cabeça? Por que bater cabeça? Como se bate cabeça? “Bater cabeça”, o nome é simbólico, nos remete a ideia de alguém batendo cabeça em alguma coisa, bater cabeça é o ato ritualístico gestual de prostrar-se diante do altar, de uma entidade ou de um sacerdote.  “Bater cabeça” é uma reverência de adoração, de humildade, de entrega.  Dentro do ritual de Umbanda há o momento de bater cabeça, ou os médiuns já chegam no Terreiro e batem cabeça no altar antes de começar o trabalho, ou no ritual existe um momento para o ato que é acompanhado de canto especifico para bater cabeça. Existem muitos pontos(cânticos) para o momento de bater cabeça. Normalmente os médiuns vão um por um bater ...

Linhas de Trabalho na Umbanda – Pretos(as) Velhos(as) e Crianças

Linhas de Trabalho – Pretos(as) Velhos(as) e Crianças Passam pela Umbanda muitas pessoas que questionam:  Por que os nossos Guias bebem? Por que eles fumam? Por que eles têm coisas? Mas, espírito não precisa beber, espírito não precisa fumar, espírito não precisa ter elementos, nem objetos, não precisa ter um cachimbo, não precisa ter um banquinho, pra que essas coisas? Realmente, eles não precisam, eles não precisam fumar, eles não precisam beber, eles não fumam por vício, não bebem por vício, não tem apego às coisas, mas eles as têm, as usam e as manipulam em nosso favor, então essa é a grande diferença entre um espírito que quer beber e um espírito que bebe manipulando aquele elemento. Existe uma grande diferença entre um espírito que quer fumar e um espírito que está defumando com seu charuto, defumando com seu cachimbo, defumando com seu cigarro de palha, há uma grande diferença entre dizer que um espírito pr...