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A Crônica do Doutrinador

 


A Crônica do Doutrinador 

Por Fernando Sepe 

Em um centro espírita tranquilo do interior da cidade de São Paulo, o nosso amigo doutrinador fazia aquilo que melhor sabe fazer: Pregar... - Irmãos da seara bendita de Jesus, todos nós somos servos, ovelhas do grande pastor que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Sigamos suas diretrizes do amor, da bondade e principalmente do perdão. Perdoemos aqueles que nos ofendem, perdoemos a todos, pois disso depende nosso crescimento espiritual. - dizia em tom emocionado nosso amigo... - 
Lembrem-se do exemplo daquele que se fez simples, para dessa forma ser o maior. Cuidado com a vaidade, pois ela é um verdadeiro caminho para os abismos escuros e trevosos da consciência. Simplicidade irmãos! Façam-se pequenos para amanhã serem grandes em espírito. (...) Portanto, não olvideis os ataques baixos dos espíritos que caminham nas trevas. REFORMA ÍNTIMA, essa é a chave para nossa evolução espiritual. Somos todos pecadores perante a grandeza do Cristo. Mas, é do nosso calvário de lágrimas e trabalho que amanhã ascenderemos ao céu. Muito obrigado, façamos nossa oração final... 

Bem, e o nosso querido amigo doutrinador “mandou ver” na oração... Voltando para sua casa, encontrou um jovem negro andando pela rua. Fechou os vidros do carro. "Com esse tipo de gente, é melhor não vacilar", pensou fazendo uma careta. Entrou em seu condomínio sem ao menos cumprimentar o porteiro, que por já o conhecer bem foi logo o chamando de senhor e entregando as correspondências do dia, afinal, aquele nosso doutrinador era o síndico do prédio. Não muito querido, diga-se de passagem, mas muito bom na arte da persuasão... 

Chegando em casa, logo foi se irritando, pois sua filha veio novamente com o assunto de viajar com o namorado, coisa que ele não admitia. E seu filho que gostaria de seguir a profissão de ator de teatro. Imagine seu filho no meio desses vagabundos! "Devo ser um missionário com a responsabilidade de auxiliar a todos dessa casa", pensava constantemente nosso amigo. Pouco carinho dedicou a mulher, afinal, ela já não era mais "aquelas coisas". Foi para o quarto pensando o quão difícil era sua missão na Terra. Rezou um Pai Nosso decorado e a Prece de Caritas só pela metade, pois ficou com uma "preguicinha"... Tirou o terno apertado que usava para dar um "ar de respeito" na reunião. Desligou também o Bach que tocava no toca CDs. "Isso é coisa que se toque em casa? Isso só toca nas colônias espirituais dos romances kardecistas, onde a música clássica ainda faz sucesso. Porcaria"... 

Ligou a TV, ficou vendo um desses programas de auditório, onde mais um grupo de funk mostrava e "rebolava sua arte". Até que essa loira é "gostosinha"... E assim o amigo doutrinador dormiu. Sonhou com Jesus, mas ele não era só amor como podia se esperar. Estava de chicote na mão e usava uma capa preta... "Acho que ele quer que eu pegue mais pesado nas doutrinações! Amanhã vou falar sobre aqueles que vão às reuniões, mas em seu dia a dia nada praticam"! 

E voltou a dormir tranquilamente... PS: Aqui é Jesus quem está vestido de preto, mas todos os dias, Krishna, Buda, Maomé e muitos outros avatares, assim como as divindades, se vestem de preto! Ah esses pregadores...

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